Por André Coimbra | Conselheiro Estratégico em Digital Growth Intelligence
Durante muito tempo, o digital foi tratado como mais um canal do marketing. Um lugar para publicar conteúdo, anunciar, captar leads e vender. A estratégia do negócio era definida primeiro e, depois, alguém recebia a missão de “levar aquilo para o digital”.
Essa visão fez sentido em outro momento. Hoje, ela ficou pequena diante do papel que o digital passou a ocupar.
Minha tese é simples:
O digital deixou de ser apenas um canal e se tornou o principal sistema de crescimento dos negócios.
Uma tese, não uma verdade absoluta
Essa afirmação não deve ser lida como uma verdade absoluta sobre todos os negócios. Há empresas cujo crescimento ainda depende principalmente de localização, capacidade produtiva, distribuição física, vendas de campo, relações institucionais, regulação ou contratos de longo prazo. Nesses casos, o digital pode ser relevante sem ocupar o papel de principal sistema de crescimento.
O peso do digital varia conforme o setor, o modelo de negócio, o perfil do cliente, a maturidade da empresa e o momento estratégico. Até negócios semelhantes podem exigir respostas diferentes.
Minha tese aponta para uma mudança de direção. Em muitos mercados, o digital já ocupa uma posição central. Em outros, ainda não ocupa, mas passa a influenciar cada vez mais como a empresa compreende o mercado, gera demanda, constrói confiança, se relaciona, vende e aprende.
Essa diferença importa. Não estou defendendo que toda venda precise acontecer pela internet ou que toda empresa deva se tornar digital. Estou defendendo que o digital deixou de ser apenas o lugar onde a estratégia é divulgada. Ele passou a participar da construção, da execução e do aperfeiçoamento da própria estratégia.
A própria OCDE reconhece que a transformação digital afeta praticamente todos os setores, mas que seus efeitos variam de acordo com o contexto. A tese, portanto, não é uma prescrição idêntica para todas as empresas. É uma lente para compreender o papel crescente do digital no crescimento contemporâneo.
Não estou dizendo que produto, marca, vendas, atendimento ou operação perderam importância. Pelo contrário. Estou dizendo que o digital passou a conectar essas áreas, gerar inteligência entre elas e influenciar as decisões que determinam como um negócio se posiciona, conquista clientes, aprende e cresce.
A mudança já aparece nos dados
Nenhum dado isolado prova que o digital seja o principal sistema de crescimento de todas as empresas. Mas alguns números ajudam a dimensionar por que ele deixou de ser periférico.
Em 2025, aproximadamente 6 bilhões de pessoas, o equivalente a cerca de três quartos da população mundial, utilizavam a internet, segundo a União Internacional de Telecomunicações, agência especializada das Nações Unidas. A mesma fonte mostra que 2,2 bilhões de pessoas ainda permaneciam desconectadas, o que também reforça por que não se deve tratar a digitalização como uma realidade uniforme.
No Brasil, a PNAD Contínua TIC 2025, do IBGE, mostrou que a internet estava presente em 95% dos domicílios. Entre as pessoas com 10 anos ou mais, 90,5% haviam utilizado a internet em 2025, o equivalente a 168,7 milhões de pessoas.
O comportamento econômico também dá sinais dessa mudança. Segundo o Banco Central do Brasil, o Pix respondeu por 54,7% das transações registradas nas estatísticas de meios de pagamento no segundo semestre de 2025. Isso não significa que todos os negócios se tornaram digitais, mas mostra como uma infraestrutura digital passou a organizar parte relevante das trocas econômicas cotidianas.
A mudança também aparece na literatura de estratégia. Em artigo publicado na MIS Quarterly, Bharadwaj, El Sawy, Pavlou e Venkatraman defenderam que a estratégia de tecnologia deveria deixar de ser tratada apenas como uma função subordinada e passar a refletir uma fusão entre estratégia de tecnologia e estratégia de negócio, formando aquilo que chamaram de estratégia digital de negócios.
Essas evidências não transformam minha tese em uma regra universal. Elas sustentam algo mais preciso: o digital ganhou escala, passou a atravessar atividades econômicas e deixou de poder ser tratado apenas como uma frente de comunicação ou execução.
O digital não entra mais depois da estratégia
Na lógica antiga, o negócio definia sua estratégia e o digital entrava na etapa de execução. Primeiro eram decididos o produto, o posicionamento, o público, a oferta e os objetivos. Depois vinham o site, as redes sociais, o tráfego, o conteúdo e as campanhas.
Hoje, essa relação deixou de ser linear.
O comportamento das pessoas no digital revela mudanças de interesse, novas demandas, objeções, oportunidades e sinais de mercado. Os dados mostram onde há atenção, onde existe intenção de compra, em que ponto os clientes desistem e o que aumenta a conversão. As interações com o público ajudam a aperfeiçoar produtos, ofertas, mensagens e experiências.
Por isso, a visão de negócio não precisa mais estar completamente pronta antes do digital. Ela pode nascer, evoluir e ganhar precisão junto com ele.
O digital não serve apenas para executar uma estratégia. Ele participa da construção da própria estratégia.
Por que o digital se tornou um sistema de crescimento
Um canal cumpre uma função específica. Um sistema conecta diferentes partes para produzir um resultado maior.
É exatamente isso que o digital passou a fazer.
Hoje, ele conecta marca, posicionamento, aquisição, vendas, relacionamento, dados, tecnologia e experiência do cliente. Uma pessoa pode descobrir uma empresa por meio de um conteúdo, pesquisar sua reputação, comparar alternativas, conversar com o time comercial, comprar, receber atendimento e continuar se relacionando com a marca. Cada contato produz informações que podem melhorar a próxima decisão.
Quando essas partes trabalham na mesma direção, o digital deixa de ser uma coleção de ações e passa a funcionar como um sistema que aprende.
Esse sistema ajuda o negócio a compreender melhor o mercado, identificar oportunidades, corrigir gargalos, reduzir desperdícios e concentrar recursos naquilo que apresenta maior potencial de resultado.
Mesmo quando a venda acontece fora da internet, o digital costuma influenciar a descoberta, a confiança, a decisão, o relacionamento ou a recorrência. É por isso que seu impacto não pode mais ser medido apenas pelo desempenho de uma campanha ou de um canal isolado.
O digital atravessa a jornada inteira e cria ciclos contínuos de percepção, decisão, execução e aprendizado.
O problema não é a falta de ações
Muitas empresas já investem no digital, mas ainda não o transformaram em um sistema de crescimento.
Elas produzem conteúdo, compram mídia, contratam ferramentas, testam canais, adotam automações e acompanham uma quantidade cada vez maior de indicadores. Há trabalho, investimento e esforço. Mesmo assim, falta clareza sobre o que realmente está movendo o negócio.
O problema não é necessariamente fazer pouco. Muitas vezes, é fazer coisas demais sem uma direção comum.
Cada área enxerga uma parte. O marketing busca alcance e leads. Vendas cobra oportunidades mais qualificadas. A tecnologia implementa ferramentas. A liderança acompanha o faturamento. A operação tenta atender ao crescimento. Mas ninguém está olhando para o sistema inteiro e conectando as decisões.
O resultado é um digital fragmentado: campanhas que não conversam com o posicionamento, dados que não viram aprendizado, ferramentas subutilizadas, times com prioridades diferentes e investimentos distribuídos sem clareza sobre onde existe maior potencial de retorno.
Crescimento não acontece porque uma empresa acumula iniciativas. Acontece quando ela consegue enxergar melhor, decidir melhor e executar com direção.
É nesse ponto que nasce o Digital Growth Intelligence
Quando o digital ocupa um papel tão central, não basta dominar canais ou executar boas campanhas. É preciso desenvolver uma inteligência capaz de conectar negócio, mercado, marca, marketing, vendas, tecnologia, dados, cultura e comportamento humano.
É a essa capacidade que dou o nome de Digital Growth Intelligence.
Digital Growth Intelligence é a inteligência aplicada para transformar o digital no principal sistema de crescimento do negócio, permitindo enxergar melhor as oportunidades e tomar decisões mais certeiras sobre onde focar, investir e escalar o que realmente gera resultado.
A palavra “principal” precisa ser compreendida dentro do contexto de cada negócio. Ela não significa que o digital deva comandar todas as áreas, receber todos os investimentos ou substituir os motores de crescimento que já funcionam.
Digital Growth Intelligence não impõe uma resposta antes do diagnóstico. Em alguns negócios, o digital deve liderar o sistema de crescimento. Em outros, seu papel será conectar, ampliar e gerar inteligência para vendas, distribuição, produto, relacionamento ou operação. A inteligência também está em reconhecer quando a prioridade não é acelerar o digital, mas resolver um problema estrutural em outra parte do negócio.
O conceito parte de uma mudança importante: antes de perguntar qual canal usar, qual campanha lançar ou qual ferramenta contratar, o negócio precisa entender onde está sua maior oportunidade de crescimento.
Às vezes, a resposta estará na aquisição. Em outros casos, estará no posicionamento, na oferta, na conversão, na retenção, no processo comercial, na experiência do cliente ou na capacidade do time de aprender e executar.
Digital Growth Intelligence não começa pela ação. Começa pela leitura do sistema.
Seu papel é transformar sinais dispersos em visão, visão em prioridades e prioridades em decisões de crescimento. Isso permite que tempo, dinheiro e energia sejam direcionados para os pontos que realmente podem mudar o resultado do negócio.
Os três pilares do Digital Growth Intelligence
Na prática, Digital Growth Intelligence se sustenta sobre três pilares: visão estratégica, cultura de crescimento e aceleração inteligente.
1. Visão estratégica
Visão estratégica é a capacidade de enxergar o negócio além das ações imediatas.
É compreender o mercado, o momento da empresa, o comportamento dos clientes, os ativos disponíveis, os gargalos, os riscos e as oportunidades. É perceber como marca, produto, marketing, vendas, tecnologia e operação se influenciam.
Sem essa visão, a empresa pode executar muito e avançar pouco. Pode melhorar um indicador local enquanto piora o sistema. Pode aumentar o volume de leads sem ter capacidade comercial para convertê-los. Pode ampliar a aquisição de clientes sem resolver problemas de entrega ou retenção.
Visão estratégica serve para escolher a direção antes de acelerar.
2. Cultura de crescimento
Crescimento não pode depender apenas de uma campanha brilhante, de uma pessoa fora da curva ou de uma decisão isolada da liderança.
Ele precisa se tornar uma capacidade do negócio.
Uma cultura de crescimento cria times que observam, testam, medem, compartilham aprendizados e corrigem a rota. As áreas deixam de defender apenas suas próprias métricas e passam a compreender como suas decisões afetam o resultado do sistema.
Nesse ambiente, dados não servem apenas para construir relatórios. Servem para gerar perguntas melhores, desafiar certezas e orientar decisões.
A empresa deixa de depender de acertos ocasionais e passa a aprender de forma contínua.
3. Aceleração inteligente
Acelerar não é fazer tudo mais rápido. Também não é aumentar indiscriminadamente o investimento em mídia, pessoas ou ferramentas.
Aceleração inteligente é concentrar recursos naquilo que já demonstrou potencial ou que representa a melhor oportunidade estratégica naquele momento.
Significa saber o que deve ser acelerado, o que precisa ser corrigido, o que pode esperar e o que deve ser interrompido.
Sem inteligência, a velocidade apenas aumenta o desperdício. Com clareza, ela amplia o resultado.
O que Digital Growth Intelligence não é
Digital Growth Intelligence não é uma ferramenta, uma campanha ou um novo nome para marketing digital.
Não é sobre publicar mais conteúdos, lançar mais anúncios, acompanhar mais métricas ou adotar a tecnologia da vez. Também não é uma fórmula pronta que possa ser aplicada da mesma maneira em qualquer empresa.
Não substitui uma boa estratégia de negócio. Ajuda a construí-la, aperfeiçoá-la e transformá-la em decisões mais conectadas com a realidade do mercado.
Também não é responsabilidade exclusiva do marketing. Quando o digital se torna um sistema de crescimento, suas decisões envolvem liderança, vendas, produto, atendimento, tecnologia, dados, operação e cultura.
Por isso, Digital Growth Intelligence não deve ser tratado como mais uma iniciativa dentro do departamento de marketing. Ele precisa participar das conversas em que o futuro do negócio é decidido.
A nova vantagem competitiva
Durante muito tempo, ter acesso a ferramentas, canais e informação foi uma vantagem. Hoje, quase todos os concorrentes têm acesso às mesmas plataformas, tecnologias, métricas e referências.
A diferença está na capacidade de interpretar melhor o cenário e tomar decisões mais inteligentes.
Dois negócios podem usar os mesmos canais, contratar ferramentas semelhantes e investir valores próximos. Ainda assim, um deles cresce de forma mais consistente porque enxerga antes as oportunidades, identifica mais rápido os gargalos, aprende com os sinais do mercado e concentra recursos nas prioridades certas.
A vantagem não está apenas no acesso ao digital. Está na inteligência aplicada ao digital.
Negócios que crescem com inteligência não são aqueles que fazem mais coisas. São aqueles que conseguem enxergar melhor, decidir melhor e executar com direção.
O digital como decisão de negócio
Se o digital se tornou o principal sistema de crescimento dos negócios, ele não pode continuar restrito a discussões sobre posts, campanhas, funis e ferramentas.
O debate precisa subir de nível.
Precisa envolver perguntas como: onde está nossa maior oportunidade de crescimento? Qual gargalo está limitando o resultado? O que estamos deixando de enxergar? Onde deveríamos concentrar investimento? O que precisa ser validado antes de escalar? Que capacidade devemos construir para continuar crescendo?
Essas não são apenas perguntas de marketing. São perguntas de negócio.
Digital Growth Intelligence existe para ajudar empresas a respondê-las com mais clareza, profundidade e direção.
Minha tese, portanto, não é uma defesa ideológica do digital. É um convite para que cada negócio descubra qual papel o digital já ocupa, qual papel pode ocupar e como transformá-lo em uma fonte real de inteligência e crescimento.
Esse é o território que escolhi ocupar e desenvolver.
Eu sou André Coimbra, Conselheiro Estratégico em Digital Growth Intelligence.
Fontes e referências
- International Telecommunication Union. Facts and Figures 2025
- IBGE. Internet chega a 95% dos domicílios do país em 2025
- IBGE. Proporção de usuários da internet ultrapassa 90% da população de 10 anos ou mais em 2025
- Banco Central do Brasil. Quase 70 trilhões de reais em transações de pagamento foram realizadas no segundo semestre de 2025
- Bharadwaj, A.; El Sawy, O. A.; Pavlou, P. A.; Venkatraman, N. Digital Business Strategy: Toward a Next Generation of Insights. MIS Quarterly, 2013
- OECD. Digital Economy Outlook 2024, Volume 2
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